“NIQUIM E FIGENA”, Vencedor do 6º Concurso Nacional de Contos – Ipatinga – MG

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NIQUIM E FIGENA

Niquim era o mais famoso amansador de mulas e cavalos das Minas Gerais. Era um moço negro, de rosto calmo e dono de uma gargalhada que ecoava gostosa naqueles morros, onde se escondiam diamantes e veios de ouro.

Muitas moças queriam subir ao altar com Niquim: moças negras, moças brancas, moças caboclas. Todas encantadas com aquele riso branco, aquela alma quente, aquelas palavras carinhosas que amoleciam até o coração dos animais brutos.

Os anos passavam e Niquim continuava solteiro. Ninguém sabia de onde aquele moço veio, quem eram seus pais, em que lugar ficava a sua casa. Ele aparecia por ali como os redemoinhos aparecem na capoeira. Ia embora sem que ninguém percebesse.

Outonos desfilaram no tempo.  Invernos sucederam invernos. Primaveras encheram as serras de flores.  Verões arderam… E Niquim não envelhecia,nada mudava no seu rosto.

Mas sempre chega um dia que é diferente de todos os outros dias. E esse dia chegou trazendo Figena, uma cabocla bonita de fazer rio parar de correr. Morena feita de bronze, cabelos escorrendo negros pelas costas, sorriso de gente do mato: meio que se escondendo no rosto.

Niquim ficou que nem mula quando empaca. Encontrou Figena no riacho, lavando roupa nas águas que corriam serra abaixo. A espuma que saía das mãos da moça, de quando em quando, liberava bolhas que subiam multicoloridas, translúcidas; indo entregar-se aos galhos das árvores que vigiavam o riacho.

Figena fez que não viu, que não sentiu o calor dos olhos de Niquim. Virou-se e cantou cantigas dos antigos pajés. Esfregou a roupa com mais força, fazendo mais bolhas nascerem de suas mãos. O sol, já cansado, foi se inclinando no céu. Niquim permanecia imóvel, sentado no lajedão.

A morena terminou o trabalho, equilibrou a bacia na cabeça, pôs as mãos na cintura e subiu a parede do lajedo, cantando as lendas aymorés.

As estrelas já se despediam no céu e Figena não conseguia dormir. Niquim era a única imagem que aparecia na parede da visão. Só ele, só ele fez o seu sono fugir. Nos dias que vieram, a fome também afastou-se. Sede não tinha. Só sentia vontade de ver o moço que amansava bicho chucro.

O pai de Figena era homem de mais de cem mil léguas. Pressentiu no vento que era coisa de amor de moça. Vigiou os olhares da filha e adivinhou o motivo da prostração. Ah, não! Filha sua não se casaria com um Zé-Ninguém que não tinha pai nem mãe nem batistério!

Figena ficou sabendo que em poucos dias chagaria o primo Otávio, vindo de Mariana. Viria para o casório. Exatamente assim: casamento com um primo que fazia anos que ela não via. Primo mais velho. Solteirão já de cabelo perdendo a cor.

Se Niquim não existisse, o jeito era se conformar, chorava ela. Mas podia-se ouvir a sua gargalhada máscula ricocheteando pelas pedras.

Dias depois, a família de Figena se aprontou, arrumaram-se carroças e charretes, cavalos e mulas de carga. Era dia de ir à feira de São João Batista do Glória para comprar os preparativos para a festa.

Por dentro, Figena vestiu-se de luto. O véu das lágrimas cobriu-lhe o rosto. A charrete avançava e era como se fosse para o sepultamento de alguém. Seis irmãos de Figena iam na frente, abrindo caminho. Figena e os pais iam no meio, na charrete enfeitada. Na retaguarda, iam seis primos para garantir segurança.

São João Batista do Glória já estava ao alcance da visão. O telhado do casario acenava de longe. Mais uma curva e estariam nos limites da cidade.

Foi muito rápido, ninguém sabe dizer como …Como foi possível!Figena pulou da charrete e correu para abraçar o abismo. Mergulhou no nada…

No mesmo instante -se era visagem ou realidade – ninguém nunca soube afirmar; veio a ventania, nuvem de pó. Depois, o galope de mil cavalos, o barulho dos cascos e os relinchos apavorantes. Cavalos de fumaça densa chegavam de todas as direções e atiravam-se no despenhadeiro. Por fim, num cavalo de luz, chegou Niquim, que também saltou nas profundezas. O abismo encheu-se de fumaça, que demorou horas para dissipar-se…

Niquim e Figena nunca foram encontrados;por dias aquelas encostas foram reviradas, mas nenhum sinal deles foi descoberto. O povo não sabia se acreditava naquela história. Correu a notícia de que Figena estava internada no hospício de Barbacena. Outros diziam que era freira enclausurada num convento da Bahia. Outros diziam que ela tinha virado cigana e corria mundo.Tem gente que garante que os irmãos e os primos de Figena mataram Niquim e o enterraram como indigente.

O primo Otávio casou-se com a filha do governador e tornou-se o homem mais rico das Gerais. E a vida seguiu seu trilho.

O que é verdade, o que é invenção do povo, ninguém sabe dizer. Mas …Conto o que ouvi. E ouvi de um monge daqueles de barba longa, branquinha, vestido de São Francisco.  Parecia uma iluminura!  Olha, vejam bem, é história de monge!! Disse ele, que lá na Serra da Canastra, onde nasce o Velho Chico, vive um casal muito bonito. Ninguém sabe o nome deles, do que vivem, de onde vieram. Os anos passaram e eles ficaram mais jovens, mais formosos. Ciganos de vez em quando se achegam no sítio deles. Levam provisões, manufaturas, o de comer, o de vestir e o de calçar. Cigano é gente que sabe guardar segredo, quando quer. Porém, sempre tem um que fala um cadinho demais e …Deixou escapulir que lá vive um amansador de cavalos que troca as mercadorias por pedras bonitas de fazer rir, pedras que despertam cobiça!!!

Minas Gerais tem seus mistérios, gente encantada que não envelhece nem morre, que nem Niquim e Figena. Nessas serras das Gerais moram muitos enigmas. A Ciência não pode comprovar nem reprovar. É história que o povo conta porque o povo viu. Ou então ouviu alguém contar.

Se alguém tiver dúvida, fizer questão de tirar a prova dos nove, é só se embrenhar nessas veredas, subir essas serras, escalar os lajedões. Quem sabe, dia desses, lá na Serra da Canastra, um repórter moderno ou um recenseador do IBGE não descobre, não alcança um sítio desconhecido. Lá vivem e revivem Niquim e Figena, seus filhos, netos, bisnetos e tetranetos.

Lá, nas Minas Gerais, tudo é lenda, tudo é senda. Senda que vai do sonho para a realidade; da realidade para o sonho. Pode-se perder-se ou achar-se nessas sendas.

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Sobre antoniopneto

Professor de Língua Portuguesa, contista e cronista.
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