DIÁSPORA PARANAENSE

DIÁSPORA PARANAENSE

                                                                                   Antonio Neto

Meu amigo José,

Filho pródigo de Maringá.

Você nunca mais deu notícias,

Engrossou a fila dos migrantes,

É mais um paranaense errante,

Perdido na Pauliceia!

 

*

 

“Procura-se:

Homem justo,

Simples,

Natural do Paraná.

Quem encontrá-lo,

Será presenteado com uma canção.”

 

**

 

José,

Você é tão simples,

Tão puro!

Um trovador do sertão!

Agora, um ser apagado…

O seu violão está calado,

Sufocado na multidão.

 

***

 

“Procurado:

Paranaense ausente,

Um caçador de ilusões,

Favor entrar em contato

Através deste poema.”

 

****

 

 

Meu amigo José,

Já não ouço a sua voz

Acordando a madrugada,

Despertando a passarada

Que dorme nos pinheirais.

 

*****

 

“Urgente:

Recompensa-se bem quem tiver notícias concretas,

Abstratas,

Objetivas ou subjetivas,

Que possam identificar a (in)exata localização

Do esperançoso migrante

Que se perdeu na busca do vil metal”

 

******

 

José,

Você é tão exato,

Tão casto!

Um típico samaritano.

Hoje, você é estatística:

Um homem sem rosto,

Sem nome.

Um algarismo suburbano!

 

*******

 

“Busca-se – poeticamente – José,

Um filho pródigo do Paraná.

Há décadas que não visita a família,

Não vota,

Não manda notícias.

Esqueceu o caminho de casa…”

 

********

 

José,

Você é negro,

É branco,

Um bugre desconfiado.

É mais um retirante…

Você é brasileiro demais!

 

*********

 

“Desaparecido:

Um rebento de Maringá.

Último endereço: as ruas de São Paulo.

Características marcantes:

Olhar de menino e o cheiro do Paraná.

Estatura: a da honestidade.

Cor: a humana.

Peso: insustentável.

Cicatrizes no ego,

Lacerações nos sonhos,

Marcas de envelhecimento precoce,

Incontáveis queloides nas costas.

Hobbies: canta(dor) e pintor de crepúsculos.”

 

**********

 

José,

Você não é carpinteiro;

Nem o seu filho se chama Jesus…

Você é mais um sem-teto,

Um homem sem paradeiro.

A sua vida é a sua cruz!

 

***********

 

“Carta ao vento:

Amigo,

Perdoe-nos por não o encontrarmos.

Já vasculhamos o palheiro urbanístico,

Investigamos o indevassável,

Interrogamos o silêncio…

Dê-nos uma pista, José!”

 

************

 

 

Meu amigo maringaense,

Busco o seu nome na lista dos desaparecidos,

Dos indigentes,

Despossuídos,

Enganados,

Desiludidos,

Dos sonhos abduzidos…

Procuro,

Procuro!

Procuro à toa!

 

*************

 

“Abaixo assinado:

Nós, abaixo assinados, pedimos a intercessão dos deuses romanos, indígenas e africanos, para que possamos encontrar um ente querido que sumiu do mapa. Seu nome, José. A localização deste cidadão é indispensável para a Consumação dos Séculos. Amém!“

 

**************

 

“Desabafo:

Quando o conheci,

Eu ainda não sabia ser amigo.

Perdoe a minha ascendência adâmica:

O meu egoísmo,

A minha inveja,

A minha roda dos escarnecedores.

Amigo, perdoe a minha cegueira!”

 

***************

 

José,

Meu nobre brasileiro!

Você é um povo inteiro

Que saiu do interior.

Eu o procuro

Em crônicas,

Em poemas,

E lamentos.

Peço a ajuda dos ventos.

Eu abraço a sua ausência!

 

*****************

 

Meu amigo José,

Filho pródigo de Maringá!

 

 

 

Contato do autor: aspn70@hotmail.com

solitário

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Sobre antoniopneto

Professor de Língua Portuguesa, contista e cronista.
Esse post foi publicado em autores do Espírito Santo, Poesia e marcado , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

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