RICARDO CHAGAS, um talento do Paraná!

 

ricardo

EM NOME DO PAI

Chego em casa todo moído, a oficina tá me matando. Um escarcéu na rua de casa. Polícia, gentarada, rádio, TV o escambau. Logo fico sabendo que mataram o moleque do vizinho. Era colega do meu piá. O mundo anda doido mesmo. Minha mulher tá esquentando a barriga no fogão. Meu moleque de olho vidrado na TV. A mulher falou que o piá tá muito assustado desde que soube da morte do amigo. Vou falar com ele: “As coisas são assim mesmo, basta tá vivo pra morrer, antes ele do que o cê.” O moleque não me olha, não responde, apenas balança a cabeça. Parece que viu o diabo na frente. Deixo pra lá. No meu tempo as coisas eram diferentes, meu pai tinha me enfiado a mão na fuça só por eu não olhar no olho dele enquanto falava. Essa molecada só quer saber de TV, videogame, computador. No meu tempo, brinquedo era cabo de enxada, passava o dia todo capinando debaixo do sol.

Tomo uma ducha gelada. Alguma coisa tá errada. O guri tá assustado demais. E se ele viu alguma coisa e não quer contar. De repente, um frio na barriga. Putz… Minha arma! Saio do chuveiro, não me enxugo, enrolo a toalha na cintura. Vou ver a caixa de sapatos em cima do guarda-roupa. Porra! Eu sabia, fuçaram no meu revólver. Tiro a cinta da calça e vou atrás do piá.

“Onde que tá o meu revólver, seu moleque do capeta?” Grito, com a cinta erguida na mão.

“Num sei, num sei, num sei…” Diz o moleque, se encolhendo todo.

“Não mente, seu filho de uma égua!” Desço a cinta nele. O couro estala no ar. Acho que acerto a fivela, sai muito sangue.

“Foi sem… querê. A arma… disparô sozinha…” Diz, soluçando.

Sinto algo estranho. Um aperto no peito. Um nó na garganta. A vista escurece. Achei que ia ter um treco. Não vejo mais nada, desço a cinta no piá com toda a força. Milha mulher tenta entrar no meio. Dou lhe um soco na testa. Ela cai sentada no chão.

“É culpa sua, bruaca! Onde tava que não viu o moleque fuçando no meu revólver? Tava batendo perna?”

Ela não diz nada, acho que ficou meio tonta com a pancada. Melhor. Se abrisse o bico, ia perder os dentes. Pego o moleque pelo colarinho e jogo no carro. Não tem nem dez anos e já é bandido. Sou pai dum assassino.

“Vou te levar pra cadeia, seu filho de uma puta. Cê vai passar o resto da vida lá. E engole o choro, senão vai apanhar mais.”

Levo uma meia hora pra chegar na delegacia. Mas parece que demoro muito mais. No caminho, um silêncio desgraçado. Paro em frente à cadeia. Tá tudo vazio.

“Desce moleque, chegou tua hora.”

O guri se encolhe todo, abraça os joelhos, choraminga, mija nas calças.

“Se molhar o banco do carro com urina, eu te mato.”

Já tá bom. Acelero o carro, pego o caminho da rodovia, ando alguns quilômetros, depois pego a estrada e ando mais um tanto até a casa da minha velha. Ela se assusta ao me ver. Povo do sítio não é acostumado a receber visita à noite.

“Filho, o que tá acontecendo? Por que o piá tá desse jeito?

“O moleque fez umas artes lá na cidade. Num dá pra explicar agora, ele vai passar uns tempos aqui.”

“Ô, filho, reza, tem que rezá. Deus ajuda nós.”

Ela tenta me fazer um afago, eu chego pra lá. Ela põe um terço no bolso da minha camisa. Entro no carro, bato a porta. Ela leva o piá pra dentro. Acendo um cigarro. Minha mão não para de tremer. Seguro firme o volante. Sossega, mão! Sinto o rosto molhando. Enxugo os olhos com as costas da mão. Macho não chora. Meu peito dói, levo a mão no coração. Sinto o terço no bolso da camisa. Faço o sinal da cruz. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém.

 

Biografia

Sou formado em Letras na Univale, e em Geografia da UEPG. Até pouco tempo era borracheiro, o que deixava algumas pessoas perplexas ao verem pilhas de livros em uma borracharia, hoje trabalho como professor na rede pública de ensino e Orientador de Atividades na Biblioteca Sesc. Publiquei algumas crônicas e contos nos jornais Folha de Londrina, Paraná Centro, Revista Uma Nova Visão e Revista Pluriversos. Em 2010 recebi menção honrosa no Prêmio Cataratas de Contos e Poesia, em 2011 fui o segundo colocado no XXXIII Concurso Nacional de Contos e Poesias da FAFIMAN, em 2012 recebi menção honrosa no Concurso Nacional de Contos Laertes Larroca e no VII Concurso de Crônicas Rubem Braga. E fui novamente segundo colocado no XXXIV Concurso Nacional de Contos e Poesias da FAFIMAN. Em 2013 recebi menção honrosa no Prêmio TOC 140 Os cem melhores poemas do Twitter e fui primeiro colocado no XXXV Concurso de Contos e Poesias da FAFIMAN, em 2014 recebi menção honrosa no 13º circuito de Literatura Clesi: 5º Concurso Nacional Contos, fui finalista do Concurso de Contos José Cândido de Carvalho e recebi menção honrosa no Prêmio Cataratas de Contos e Poesias 2014 e no Prêmio CLIPP 2014. Em 2015 recebi menção honrosa no 14° Circuito de Literatura Clesi: 6° Concurso Nacional de Contos. Em 2016 publiquei diversas crônicas para o site Literatura Amarga, fui 3º colocado no Prêmio Escriba de Contos. Em 2017 recebi menção honrosa no 30° Concurso de contos cidade de Araçatuba, fui selecionado para publicação no 7º Concurso de microcontos de humor de Piracicaba.

 

Contato do escritor:

https://www.facebook.com/ricardo.chagas.71

Anúncios

Sobre antoniopneto

Professor de Língua Portuguesa, contista e cronista.
Esse post foi publicado em autores do Paraná, contista paranaense, Contos, escritores de Ivaiporã, Sem categoria e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s