A (RE)CRIAÇÃO DE SIMONE PEDERSEN

A natureza presenteou o mundo com uma infinidade de seres, dos minúsculos aos descomunais, que povoam (quase) todos os ambientes terrestres. São os animais. Seres que dividem conosco este planeta que chamamos de Terra. O relato bíblico encanta e faz sonhar com os dias primevos da criação:

Deus disse: “Pululem as águas de uma multidão de seres vivos, e voem aves sobre a terra, debaixo do firmamento dos céus.”
Deus criou os monstros marinhos e toda a multidão de seres vivos que enchem as águas, segundo a sua espécie, e todas as aves segundo a sua espécie. E Deus viu que isso era bom.
E Deus os abençoou: “Frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, e enchei as águas do mar, e que as aves se multipliquem sobre a terra.”
Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o quinto dia.
Deus disse: “Produza a terra seres vivos segundo a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selvagens, segundo a sua espécie.” E assim se fez.
Deus fez os animais selvagens segundo a sua espécie, os animais domésticos igualmente, e da mesma forma todos os animais, que se arrastam sobre a terra. E Deus viu que isso era bom.
Então Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastem sobre a terra.”
Gênesis 1:20-26

O ser humano brinca  – desde as cavernas que guardam as figuras rupestres – de (re) criar aquilo que o cerca e o fascina.

Em Poemas Minimalistas, a escritora Simone Pedersen segue a tradição humana de ser coautora na Criação. Ilustrado por Mário Silva, o livro traz 60 poemas que têm o poder de nos obrigar a lê-los inúmeras vezes,  tentando captar toda a magia que as palavras e as ilustrações encerram. É um caso de simbiose perfeita entre texto e ilustração.

Publicado pela editora RHJ, de Minas Gerais, a obra pode ser encontrada nas escolas públicas do Brasil, graças à distribuição realizada  pelo Ministério da Educação através do Programa Nacional Biblioteca da Escola.

Quem ama animais, quem ama poesia, pode procurar em uma biblioteca escolar pública aí bem pertinho da sua casa. Ou entrar em contato com a editora: http://www.editorarhj.com.br

Em uma época em que fácil fácil se destrói uma bacia hidrográfica quase por completo, em nome do lucro fácil e irresponsável, Simone Pedersen vem nos presentear com uma obra que faz sonhar com o dia em que Deus criou a Vida.

Simone Pedersen

 

 

Antonio Neto

Santa Maria de Jetibá – ES, 29 de Fevereiro de 2016.

 

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TEMPO DE CHUVA

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PRÊMIO SARAIVA – Literatura Juvenil 2014

Cafezinho quente, fumegando! Bolinhos de chuva preparados com carinho de vó! É o sabor que nos deixa o livro de crônicas TEMPO DE CHUVA, um dos três vencedores do Prêmio Saraiva – Literatura Juvenil – 2014.

Que mãos escreveram esta obra que convida ao aconchego, à reflexão e ao riso?

As mãos que manejaram a alquimia lírica de Tempo de Chuva são de Carlos Almeida, mestre em Engenharia Civil, residente em Três Rios – RJ. Ele também foi o vencedor do III Concurso Literatura para Todos, promovido pelo Ministério da Educação dentre outras premiações a nível nacional.

TEMPO DE CHUVA é composto por 16 crônicas leves, repletas de brejeirice. Trazem a simplicidade e a sagacidade dos “matutos” dessas fronteiras Minas Gerais/Rio de Janeiro. Despretensiosas, fazem rir com facilidade; embora tenham como pano de fundo algumas tensões latentes na sociedade brasileira. Carlos Almeida aborda temas espinhosos com a leveza de um aquarelista. Não doutrina, faz refletir através do  humor. Um humor inteligente, da mesma estirpe de Luís Fernando Veríssimo. Um humor terapêutico, em um momento no qual os brasileiros carecem de motivos para esboçar um sorriso sincero.

A crônica, a cada ano, vem se firmando na Literatura Brasileira como um gênero que se renova, adapta-se aos veículos de comunicação e não deixa de encantar, criticar e fazer rir, ou chorar. Carlos Almeida, convocando um TEMPO de CHUVA – chuva de Literatura refinada, com fortes raízes fincadas na cultura popular – vem engrossar a plêiade de cronistas que acalantam o Brasil em tempos de Carnaval ou de pranto.

Quem sai na chuva é pra se molhar! Pois então, tire o calçado e banhe-se nessa chuva de histórias ingênuas, matutas, brejeiras e brasileiríssimas!

 

Antonio Neto

Santa Maria de Jetibá – ES, 01 de Fevereiro de 2016.

 

 

Tempo de chuva

Carlos Almeida

 

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A SERPENTE SINISTRA DA LAGOA JACUNÉM E OUTROS CONTOS

Patrocínio da Lei Chico Prego

Livro de contos do autor colatinense Clemir Antonio Martins

Em tempos nos quais é difícil ligar a televisão para assistir a um programa jornalístico sem ter a intimidade da residência invadida por uma enxurrada de notícias sensacionalistas que expõem, necessária ou desnecessariamente, as minúcias dos crimes mais indigestos. Ou – muitas vezes – somos assaltados pelas mais surpreendentes revelações sobre a patifaria de corruptos e corruptores nacionais; o livro de contos de Clemir Antonio Martins vem trazer um pouco de uma brisa de pureza, fantasia e ingenuidade para nossas mentes.

Clemir Antonio Martins é natural de Colatina, Espírito Santo. Percorrendo uma trajetória sui generis, o autor passou pela infância sem recursos, marcada pelo bullying, em uma época em que acreditava-se que o Brasil era uma democracia racial. Superando barreiras, vencendo dificuldades, juntando pedras atiradas para construir o memorial de sua obra, Clemir surge no cenário literário capixaba com esta obra que traz histórias cândidas, sutis e cheias de um lirismo que nasce da/na aspereza dos subúrbios.

São 7 contos, sete histórias que nos levam, num voo rasante, para testemunhar literariamente a vida nos subúrbios da cidade de Serra, na Grande Vitória. Locais, pessoas, acontecimentos, cores, dores e sabores que se apresentam criando uma tela de nostalgia, melancolia e beleza. Há beleza nos subúrbios, Clemir Antonio nos faz crer nisso!

Temperando memorialismo, testemunho e ficção, o autor colatinense consegue, com louvor, nos levar das margens da Lagoa Jacuném às altitudes do monte Mestre Álvaro; com direito a uma passagem pelo cerrado goiano.

Clemir Antonio Martins, com a sua própria história, ensina que superar é possível. Agora, com o seu livro de contos, certifica que encantar também é possível.

A Serpente Sinistra da Lagoa Jacuném e Outros Contos é um livro para o público infanto-juvenil que pode ser lido por todos aqueles que terão um espírito jovem para sempre. E você, meu leitor, é uma dessas pessoas! Boa leitura!

Antonio Neto

Santa Maria de Jetibá – ES, 31 de Janeiro de 2016.

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Clemir Antonio Martins, morador de Feu Rosa, cidade de Serra – ES

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OLHOS DE COBRA

OLHOS DE COBRA, romance vencedor do Prêmio Saraiva 2014snake-face-eyes-spotted-dangerous-1400x1050

Quem não gosta de experimentar uma fragrância ou um  sabor inédito?

Na Literatura também é assim! As narrativas têm a idade da Terra, no entanto, sempre aparece um escritor ou escritora que traz novos matizes para a arte de bem contar histórias.

Em 2014, o Prêmio Saraiva nos trouxe uma dessas raras oportunidades:  Andreia Fernandes sagra-se vencedora com o romance OLHOS DE COBRA. Andreia Fernandes é polivalente: formada em Física pela PUC-RJ; ela desdobra-e entre ser escritora, dramaturga, coreógrafa, diretora e professora de teatro.

Olhos de Cobra é um romance que desafia. Não é linear. Trata-se de uma trama muito bem engendrada, que – a princípio –  costura os  fragmentos de memórias de Laura, um personagem misterioso, dúbio, que até carece de credibilidade quanto à sua real existência dentro do romance. Pode? Pois, é. Pode! Andreia Fernandes pode! E o faz com maestria. Como pano de fundo, temos o Estado do Rio de Janeiro. Desde as fazendas que margeavam o rio Paraíba do Sul no século XIX aos becos da cidade do Rio de Janeiro, quando ainda era a  capital do Brasil.

Laura é um personagem que exige muita paciência do leitor. Contudo, vale a pena. Olhos de Cobra nos conduz a um instigante jogo de investigação e análise psicológica para – quiçá – tentar saber quem é/foi Laura. Encontraremos Laura em uma enchente diluviana que arrasou decadentes fazendas de café fluminenses. Mais tarde, presa entre os muros insensíveis de um convento. Rebelde, Laura se mistura aos afrodescendentes que resistem nos espaços periféricos da Cidade Maravilhosa. Ela também encontra o amor carnal nas areias das praias que, no futuro, seriam mundialmente conhecidas. E, quando parece que tudo vai ser esclarecido, as águas turvas do Paraíba do Sul parecem nos arrastar rumo à improbabilidade. Através de um caderno centenário, com anotações de uma menina que viveu em passado distante (Laura?), somos reconduzidos ao século XXI. Tudo volta à estaca zero. O narrador-personagem Laura desaparece e eis que surge Bernardo, um pacato cidadão carioca que será tragado pelos mistérios do enigmático caderno de capa marrom que – talvez – possa decifrar o enigma de Laura.

Olhos de Cobra tem de tudo um pouco: História e estórias, geografia, suspense, amores, drama, e sobretudo, tem a capacidade de – por muitas vezes – nos deixar sem fôlego, como se estivéssemos sendo tragados pelas fortes correntezas do rio Paraíba do Sul.

Não tenha medo de encarar o OLHOS de COBRA…

Mas, talvez, um pouco de medo não nos faça mal perante uma leitura tão ímpar!

 

Antonio Neto

Santa Maria de Jetibá – ES, 31 de Janeiro de 2016.

 

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TODOS OS PECADOS … TODAS AS DORES

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Nascido e criado em Américo Brasiliense ( a cidade Doçura), o escritor Elias Araújo, professor da Educação Infantil, adentra no rol da Literatura Brasileira com o romance TODOS OS PECADOS  como quem vem para rasgar o véu do templo de alto a baixo. O título sugere cenas picantes e detalhes rubros. E, certamente, o leitor os encontrará nos capítulos que compõem a obra. No entanto, quem ultrapassar o véu partido e adentrar no Santo dos Santos, encontrará TODAS AS DORES.

Irremediavelmente construído através da ficção bordada  pelo novelo  memorialista e crivado de detalhes que só são possíveis para quem foi testemunha,  o narrador onisciente abre-nos a porteira do sítio de Moisés e Sara para desvendar a intimidade de um grupo protestante dos mais fechados. Sob o pseudônimo de Igreja Evangélica Cristã de Deus, a trama revela os bastidores da Congregação Cristã no Brasil; a mais discreta e arredia das igrejas protestantes da atualidade. Sem rancor, sem intenções difamatórias, o narrador nos leva para os abismos e píncaros da alma humana. Com ousadia ímpar, Elias Araújo desvela as tensões palpáveis que ora unem, ora separam os membros desta família que é um painel das contradições humanas.

Moisés, tal qual Saulo de Tarso, é apresentado como um homem duro, inflexível, guiado por uma fé que mais se parece com o instinto primário. No entanto, tal qual o Apóstolo dos Gentios, Moisés é lapidado pelos mais pungentes golpes que a vida pode aplicar em um ser humano; até se metamorfosear em alguém que exala amor.

Perdas, separações, preconceitos férreos, amores incompreendidos e/ou impossíveis, incesto, libido aflorada e incandescente, a busca do Divino Eterno, a solidão e a redenção temperam o enredo, no qual a compreensão das fraquezas humanas sobressai acima do sectarismo, da intolerância religiosa e dos preconceitos imediatistas.

TODOS OS PECADOS é um manifesto contra a intolerância religiosa que vive camuflada em um país que pretende ser ecumênico e que proclama ser um estado laico. Corajoso e sem os espinhos da mágoa, o autor traz para a ficção os costumes, as tradições e as contradições de uma igreja avessa à mídia e que se tornou, mesmo assim, uma das maiores igrejas protestantes do Brasil, estendendo sua influência – inclusive – para outros continentes.

Na família de Moisés, à mesa servida por Sara, estamos todos nós. Nossos amigos, nossos filhos … Nós mesmos… Nós somos assim, frágeis, volúveis, reticentes…

O simpático professor da Educação Infantil de Américo Brasiliense talvez ainda não saiba o teor, a dimensão, a profundidade e o valor da obra que construiu. Contudo, no futuro – e por que não agora mesmo?! – mestrandos e doutorandos do Brasil e dos demais países lusófonos poderão –  e podem já! – explorar este veio rico e quase inexplorado que versa sobre o sectarismo e a intolerância religiosa no Brasil;  desvelando, assim, uma faceta da nossa cultura ainda pouco conhecida.

A porteira está aberta. Que venham os leitores! TODOS OS PECADOS é de leitura fácil, conquanto seja profunda. Mas não se enganem, TODAS AS DORES os aguardam; embora – ao final da leitura – a ternura e a esperança saiam vencedoras.

Antonio Neto

Poá – SP, 19 de Janeiro de 2016.

 

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DIEGO HAHN

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Papai Noel não existe  

Não lembro bem do exato momento em que esse fato se deu – o que me parece estranho, já que é de certa forma um divisor de águas: agora você é um mocinho, não é mais tão ingênuo, não acredita mais em tudo que te dizem, sabe que há muito mais coisas por trás das coisas por trás de todas as coisas, e às vezes as pessoas só querem te iludir e…

Bem, enfim, você entendeu: é um divisor de águas. Pois, como dizia, não lembro bem do exato momento em que descobri – ou me contaram – que o bom velhinho não existe, ao menos não aquele bom velhinho, que bom velhinho de verdade mesmo é o vovô e ele não dirige um trenó voador e ele tem como animal de estimação um protocolar cãozinho e não um bando de renas. Não lembro, aliás, se descobri por conta própria ou se alguém me contou, mas não creio que tenha restado algum trauma da revelação; ao menos não tenho registrado na memória algum choque decorrente de tal descoberta…

Penso nisso, no entanto, agora, ao sentir essa melancolia, essa nostalgia, essa tristeza misturada com alegria inundar meu peito, ao flagrar o palhaço, ainda todo maquiado, fora do picadeiro, fumando um cigarro e esbravejando algum palavrão em protesto contra alguma coisa que o incomoda ou contra as agruras da vida em geral, com um tom de voz e uma carranca totalmente diversos daqueles impostados naqueles mágicos momentos de alguns instantes atrás no decorrer do show.

Esse palhaço fora do picadeiro é a vida crua e real. Ele é a revelação que Papai Noel não existe mais uma vez sendo jogada na minha cara, depois de tantos anos.

Não só ele, na verdade, como qualquer artista em geral, quando o vemos “do lado de fora”, falando de qualquer futilidade do cotidiano, como a gente, nos dá uma certa sensação de “pertencimento” ao mundo, uma sensação de que a nossa vida não tem nada de excepcionalmente banal – ela é banal como todas as outras, mesmo aquelas das estrelas – e ao mesmo tempo de desilusão.

Pois sim. No fim das contas, é isso: vivemos de ilusão.

É como ver o ídolo do nosso time indo embora depois de anos de clube e jogando no rival, beijando a camisa adversária como um dia beijou a nossa; é como ver os erros de gravação de um filme; é como perceber que talvez não haja nada além dos erros de gravação.

Mas ainda assim vivemos e continuamos nos alimentando de ilusão. Por mais racionais e duros que sejamos, invocamos vez em quando nos nossos íntimos aquele resquício de magia que tem um quê de infantilidade – ou vice-versa – lá no fundo do peito. Apesar de termos certeza de que tudo isso aqui se resume tão somente a células, carne e barro vagando a esmo pelo espaço, olhamos da janela para o céu estrelado na calada da noite e nos permitimos viajar longe por alguns instantes, solitariamente, em segredo, sem que ninguém mais saiba, naquela nossa nave particular, buscando por um algo mais lá nos confins do universo – ou mesmo em alguma outra dimensão só nossa.

E assim, quando voltamos, por mais desgastados, ranzinzas e céticos que sigamos, continuamos rindo do palhaço – e, de vez em quando, nos flagramos até mesmo dando uma olhada meio de relance, como quem não quer nada, para a chaminé em meio à ceia de Natal.

 

Papel de Parede Gratuito de Artes : Papai Noel - Telefone

 

Diego T. Hahn, nascido em Santa Maria/RS num inverno no final dos anos 70, é formado em Turismo, atualmente assessor de Cultura e Turismo da prefeitura de Nova Palma/RS e professor de língua italiana;

Foi premiado no Concurso Literário Felippe D´Oliveira (Santa Maria/RS) nos anos de 2011, 2012 e 2014; em 2013, no Concurso de Contos “Águas do Tijuco” (Ituiutaba/MG) e no Prêmio Sesc de Literatura (Brasília/DF), Crônicas “Rubem Braga”; e em 2015 no Festival de Literatura de Tupã/SP e no Concurso Literário Infantil Ignez Sofia Vargas (Santa Maria/RS).

Publicou de forma independente os livros de contos “Flashbacks de um mentiroso” (2012) e “Histórias reais de amigos imaginários (e vice-versa)” (2014), e integrou a coletânea de crônicas sobre o Internacional de Porto Alegre, “Minha camisa vermelha” (Editora Movimento/2014).

Toca o blog pseudo-literário “De Letra”: www.deletradj.blogspot.com.bre como não, não está em nenhuma rede social, seu contato é o arcaico e bom e-mail: diegohahn@hotmail.com

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A FILHA DA LAVADEIRA

A FILHA DA LAVADEIRA

Olhando as águas que vencem a resistência das pedras, infiltrando-se nas frinchas rochosas, a correnteza conduz o olhar do observador aos locais de remanso, onde as pedras – generosas – quase que formam pequenos tanques nos quais as lavadeiras vêm tirar o seu sustento nas águas do Rio Vermelho.

Quantas mulheres da Cidade de Goiás não recorreram às águas samaritanas do Rio Vermelho para tirar sustento para a família, depois que o marido migrou, em busca de sonhos; arranjou outra família, esquecendo a primeira; ou amasiou-se com a cachaça, entregando-se totalmente aos seus caprichos?

Lavadeiras de Goiás Velho, mulheres-água. A lavadeira traz consigo a aura da penitência. Cumprem sina. Desafiam as dificuldades, os preconceitos, a carestia, os abandonos. Falta tudo à lavadeira, menos uma palavra bendita na boca, um “Deus abençoe!”, um “Deus lhe pague!”, e um “Bom dia!”, que vencem as trevas do pessimismo.

Balbina é filha de lavadeira. O pai arranjou outra em Pirenópolis. Partiu sem ao menos um adeus. Não deixou nem um centavo para o pão dos quatro filhos.  A mãe revirou o céu e a terra por uma semana. Depois chegou a notícia de que o marido estava amancebado com uma viúva de posses. Entendeu o abandono e procurou trabalho para sustentar os filhos. Lavadeira: era só ter uma bacia, pedras de sabão e força nos braços, porque a água o Rio Vermelho dava de graça. E graças ao Rio Vermelho, os filhos da lavadeira tinham um pouquinho do de comer.

Vida de filha de lavadeira não é brincadeira! Balbina é a mais velha. É dela a responsabilidade sobre os mais novos. Quando a mãe não pode, não tem tempo; é ela quem busca as enormes trouxas de roupa na casa das freguesas. São trouxas enormes, quase do mesmo peso de Balbina. Ela parece aquelas formigas carregadeiras que transportam folhas muito maiores do que elas mesmas. Quando o pai saiu de casa, Balbina abandonou os estudos. Como conciliar tanto trabalho com os estudos? Não dava! Mas os irmãos menores continuavam na escola na esperança de terem um futuro menos pedregoso.

Muitos homens desocupados assobiavam ao ver Balbina, que entrava na flor da adolescência. Tinha gente que queria bicar daquela carnezinha magra, desnutrida, sempre com um leve tremor de fomes superpostas. A menina tinha medo deles, de que fizessem mal a ela. A infância ainda morava em sua mente, embora as curvas do quadril e as mamas que afloravam sob o vestido de chita barata denunciassem que ela estava ficando pronta para ser mulher.

A mãe de Balbina transfigurou-se em viúva de marido vivo. Só tinha força para o trabalho. A risada morreu em seus lábios. A juventude abandonou-a precocemente. Rugas e cãs vieram alugar-lhe o corpo. A espinha dorsal curvou-se ao peso das dificuldades. Sem tratamento, os dentes se foram, como vai a espuma nas águas do Rio Vermelho. Balbina sentia dó da mãe. Era um retrato vivo do sacrifício. Era uma mulher sem férias, sem embelezamento, sem libido. A mãe era como o esterco da horta que se entrega para dar viço às hortaliças, filosofava Balbina.

O Rio Vermelho foi testemunha do início do ciclo menstrual de Balbina. Ela lavava uns lençóis para a mãe, quando sentiu o fluxo descer. Urina não podia ser, o que seria aquilo? Ela subiu um pouco a saia, até à altura das coxas. O sangue vivo descia… O desespero cresceu, dando vida a mil pesadelos. O filete descia escarlate, manchando as águas, unindo-se às águas sagradas do Rio Vermelho. Seria doença? Seria castigo divino por algum pecado involuntário? Enquanto o fluxo vertia serpenteando as coxas, as lágrimas saltavam de seus olhos para unirem-se ao sangue e à correnteza.

Os lençóis brancos seguiram a procissão das águas. Balbina os viu serem arrastados por entre as pedras do rio. Que se fossem! A menina lembrava-se das Dez Pragas do Egito, de quando as águas do Egito viraram sangue. Em sua imaginação, as águas sadias de todo o Goiás também iriam se converter em sangue. Em disparada, voltou para casa, indo buscar asilo no colo quente da mãe, que passava as roupas com um pesado ferro à brasa.

Ao ouvir os desesperos da filha, a mulher sorriu com ternura. Pediu para os mais novos irem brincar no quintal e sentou-se com a menina, contou-lhe a sina das mulheres. Narrou a história de Eva, da tentação da serpente, da queda da humanidade e, consequentemente, do ciclo menstrual e do parto com dores. Explicou – delicadamente – para a filha, que a fenda que as mulheres têm entre as pernas, é a cova onde o homem deposita a semente. E que para depositar a semente, o homem utiliza um membro que eles carregam entre as pernas; que esse membro, quando endurecido, fertilizava as mulheres e brotavam os bebês na barriga das mães.

A história da mãe demorou a ser assimilada pela menina, mas fazia sentido. Agora que ela já era mulher, tomaria muito mais cuidado com os homens que a espreitavam. Entendia, enfim, porque eles assobiavam, faziam gracejos e falavam sandices…

Balbina e a mãe foram obrigadas a lavar roupa de graça por três longos meses para a dona dos lençóis que se foram com as águas do rio. Mas a mãe achou até graça do ocorrido. Desde então, as duas ficaram mais unidas, mais irmanadas para as lutas da vida; porque uma mulher tem que saber ser arrimo para outra mulher.

Antonio Neto

Santa Maria de Jetibá – ES

2015

 

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