Incríveis jogos de palavras: para acabar com a monotonia

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Autor: Laércio Bacelar

Acostumamo-nos com a definição de que a Metalinguagem é a linguagem que descreve sobre ela mesma. Isto é, ela utiliza o próprio código para explicá-lo. E  o que dizer de um livro que descreve o próprio ato de escrever ?

Incríveis jogos de palavras: para acabar com a Monotonia…”, de Laércio Bacelar, leva o exercício metalinguístico ao ápice. Usando uma linguagem bem articulada, de fácil compreensão, essa obra de ficção infantojuvenil foi vencedor do IV Prêmio Agostinho de Cultura – 2013, tendo sido publicado pela editora Adonis, em 2015.

Tudo começa na Rede Metafórica de Televisão, na qual trabalha um roteirista que se vê às voltas com um pedido inusitado: o diretor de programação exige um roteiro “eletrizante”.

Socorrido pela Inspiração, uma espécie de Fada da Linguagem, o roteirista vai viver situações hiperbólicas, metafóricas, sinestésicas e paradoxais. A narrativa é, literalmente, “eletrizante”. Vilões e heróis da Semântica e do mundo lexical desafiam a imaginação, levando-nos à beira de um ataque de ansiedade (para saber o que virá no próximo capítulo).

As ilustrações de Ronan de Souza Lima dão um ar de HQ à trama. Imagens e texto se completam nessa aventura metalinguística.

Laércio Bacelar acertou na mão ao escrever este livro! O público infantojuvenil (e também o adulto) ganham um livro que, com certeza, vence a Monotonia.

Saia da Monotonia! Adquira o seu Incríveis jogos de palavras: para acabar com a monotonia…

Sobre o autor:

Laércio Nora Bacelar é licenciado em Letras em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais; fez Especialização em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Mestrado em Lingüística pela Universidade de Brasília e Doutorado em Artes (Linguística) pela Universidade Católica de Nimega (Nijmegen – Holanda). Lecionou na UNI R (Porto Velho – RO) ; UAM (Poznan – Polônia), UFU (Uberlândia – MG), UFG (Goiânia – GO), UNIUBE (Uberaba-MG), UNIR – (Campus de Guajará-Mirim/RO) e UNIVERSO (Goiânia – GO), como docente em nível de Graduação e Pós-Graduação, nas áreas de Lingüística, Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Como pesquisador, atua na área de Etnolingüística, promovendo o resgate, a documentação e a análise da língua indígena Kanoê. Paralelamente, desenvolve atividades artístico-culturais (música e teatro) e, como poeta e contista, foi premiado em alguns concursos literários nacionais. (Fonte:Plataforma Lattes)

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“Aos senhores, senhoras, senhoritas e jovens solteiros”, crônica de Antonio Rocha Neto.

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Andei pensando: usamos o termo “senhora” para dirigir a palavra a mulheres casadas e “senhorita” para dirigi-la a mulheres solteiras. Usamos o termo “senhor” para dirigir a palavra a homens casados e “senhorito” para dirigi-la a homens solteiros. Certo? Peraí, o corretor ortográfico sublinhou em vermelho a palavra “senhorito”. Sublinhou de novo! Melhor pesquisar.

Pesquisa concluída: o que achei foi o seguinte: “Se senhorita designar senhora pequena, o masculino será “senhor pequeno”, “senhor de baixa estatura”, “fraca figura”, etc. Se senhorita significar “mulher jovem e solteira”, os correspondentes masculinos serão: “jovem cavalheiro”, “senhor jovem e solteiro”, “homem jovem e solteiro”. Curioso, não? Existe uma palavra específica para indicar se uma mulher é casada ou solteira, mas não existe o equivalente para os “jovens cavalheiros”. Não basta, para uma mulher, ser uma “jovem dama”. A informação está incompleta. Importa saber se é casada ou solteira. Para nossa sociedade machista o que importa é saber se a “jovem dama” ainda está “no mercado” ou se “já foi arrematada”. Se aquele belo objeto deve ser respeitado, por já ter um dono, ou se ainda posso “dar um lance”.

Analisando mais detidamente: para o termo “senhorita”, no sentido de “mulher jovem e solteira”, temos que o equivalente pode ser “homem jovem e solteiro” ou “senhor jovem e solteiro”. Quer dizer: um homem jovem e solteiro pode ser tratado como “senhor”. Já as senhoritas só podem ser tratadas como “senhoras” se já possuem seu senhor!

Já que estamos falando da língua portuguesa vale a pena observar um traço da cultura portuguesa: em Portugal as mulheres solteiras são tratadas, no âmbito familiar, como “meninas”. Os homens não: deixam de ser meninos já na adolescência, e pouco importa se esses senhores se casarão ou não, um dia. São senhores de seus destinos!

Pesquisando sobre o significado da palavra “senhorita” podemos encontrar algumas coisas bem interessantes. Num dos sites se lê: “Tratamento côrtes que se dá às mulheres não-casadas. Moça solteira.” E complementando a explicação há a aplicação do termo numa única (e significativa) frase: “A senhorita procura um marido.” Que coisa, hein! Em vista desta frase talvez coubesse mais uma definição para o termo, naquele site: “Senhorita: mulher solteira à procura de marido”.

Outra curiosidade que gostaria de repartir com os senhores, as senhoras, as senhoritas e os jovens senhores solteiros: antigamente “senhorita” tinha outro significado: designava somente mulheres baixas, mulheres de pequena estatura. Em algum momento o termo teve seu uso ampliado para designar também as mulheres solteiras, o que me parece bastante pertinente, afinal de contas, qualquer mulher, não importa sua estatura, só terá chance de um dia ser vista como uma grande mulher se ao lado de um distinto senhor. Certo, meninas?

Quando se casam, nas igrejas, os padres ou pastores dizem a tão esperado frase: “Eu o declaro marido e mulher”. Marido deriva etimologicamente de “mas”, macho, em latim, que dá origem a “maritus”. Fêmeas então, por não serem machas, não podem se tornar “maridas”. Mas toda fêmea pode crescer, deixar de ser senhorita, mulher baixa, deixar de ser mera menina e, tendo tido êxito na procura de um marido, se tornar, enfim, mulher!

Não sou padre ou pastor, mas posso também fazer minha declaração. E a faço, de forma clara: a todas vocês, solteiras, casadas, viúvas: a cada uma de vocês, eu as declaro MULHER! Senhoras de seus destinos!

Antonio Rocha Neto (23/03/2017)

(Esta crônica foi publicada no jornal  Correio 9, de 05/01/2019.)

 

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Antonio Rocha Neto é economista, filósofo, membro da Academia de Letras de Vila Velha.

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A HISTÓRIA DE UMA ESCOLA

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Comunidades  que surgiram

Nessas terras frias.

Aqui se instalaram

Construíram moradias.

***

Vila Nova se ergueu

Com trabalho e honestidade.

Um povo que resistiu

A toda dificuldade.

***

Logo depois surgiu,

A Vila de Jetibá.

Muita gente que se uniu

Para a comunidade formar.

***

Todo povo que se forma

De uma escola vai precisar.

A sociedade se transforma,

Se o povo resolve estudar.

***

Muitos professores vieram,

De alguns deles vou falar:

Luzia na alfabetização,

Ivanilza e Marlucia Coan,

Jandira Marquardt e Maria Aparecida…

De todas elas  sou fã!

***

Diretoras foram eleitas,

Em eleições democráticas

Lusiane Helena e Aparecida,

Duas professoras fantásticas!

***

E muitos professores chegaram

Para essa escola engrandecer:

Ritas das Posses e Dilza,

Clebson e Gislaine,

Miquéias ,Vanusa e Jane Fanti

E me desculpem minha gente,

Se algum nome eu esquecer!

***

No cordel da nossa vida

Um nome vou escrever

EMEF Vila de Jetibá

Jamais vamos te esquecer!

 

Antonio Neto,

Santa Maria de Jetibá, 20 de setembro de 2018.

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RICARDO CHAGAS, um talento do Paraná!

 

ricardo

EM NOME DO PAI

Chego em casa todo moído, a oficina tá me matando. Um escarcéu na rua de casa. Polícia, gentarada, rádio, TV o escambau. Logo fico sabendo que mataram o moleque do vizinho. Era colega do meu piá. O mundo anda doido mesmo. Minha mulher tá esquentando a barriga no fogão. Meu moleque de olho vidrado na TV. A mulher falou que o piá tá muito assustado desde que soube da morte do amigo. Vou falar com ele: “As coisas são assim mesmo, basta tá vivo pra morrer, antes ele do que o cê.” O moleque não me olha, não responde, apenas balança a cabeça. Parece que viu o diabo na frente. Deixo pra lá. No meu tempo as coisas eram diferentes, meu pai tinha me enfiado a mão na fuça só por eu não olhar no olho dele enquanto falava. Essa molecada só quer saber de TV, videogame, computador. No meu tempo, brinquedo era cabo de enxada, passava o dia todo capinando debaixo do sol.

Tomo uma ducha gelada. Alguma coisa tá errada. O guri tá assustado demais. E se ele viu alguma coisa e não quer contar. De repente, um frio na barriga. Putz… Minha arma! Saio do chuveiro, não me enxugo, enrolo a toalha na cintura. Vou ver a caixa de sapatos em cima do guarda-roupa. Porra! Eu sabia, fuçaram no meu revólver. Tiro a cinta da calça e vou atrás do piá.

“Onde que tá o meu revólver, seu moleque do capeta?” Grito, com a cinta erguida na mão.

“Num sei, num sei, num sei…” Diz o moleque, se encolhendo todo.

“Não mente, seu filho de uma égua!” Desço a cinta nele. O couro estala no ar. Acho que acerto a fivela, sai muito sangue.

“Foi sem… querê. A arma… disparô sozinha…” Diz, soluçando.

Sinto algo estranho. Um aperto no peito. Um nó na garganta. A vista escurece. Achei que ia ter um treco. Não vejo mais nada, desço a cinta no piá com toda a força. Milha mulher tenta entrar no meio. Dou lhe um soco na testa. Ela cai sentada no chão.

“É culpa sua, bruaca! Onde tava que não viu o moleque fuçando no meu revólver? Tava batendo perna?”

Ela não diz nada, acho que ficou meio tonta com a pancada. Melhor. Se abrisse o bico, ia perder os dentes. Pego o moleque pelo colarinho e jogo no carro. Não tem nem dez anos e já é bandido. Sou pai dum assassino.

“Vou te levar pra cadeia, seu filho de uma puta. Cê vai passar o resto da vida lá. E engole o choro, senão vai apanhar mais.”

Levo uma meia hora pra chegar na delegacia. Mas parece que demoro muito mais. No caminho, um silêncio desgraçado. Paro em frente à cadeia. Tá tudo vazio.

“Desce moleque, chegou tua hora.”

O guri se encolhe todo, abraça os joelhos, choraminga, mija nas calças.

“Se molhar o banco do carro com urina, eu te mato.”

Já tá bom. Acelero o carro, pego o caminho da rodovia, ando alguns quilômetros, depois pego a estrada e ando mais um tanto até a casa da minha velha. Ela se assusta ao me ver. Povo do sítio não é acostumado a receber visita à noite.

“Filho, o que tá acontecendo? Por que o piá tá desse jeito?

“O moleque fez umas artes lá na cidade. Num dá pra explicar agora, ele vai passar uns tempos aqui.”

“Ô, filho, reza, tem que rezá. Deus ajuda nós.”

Ela tenta me fazer um afago, eu chego pra lá. Ela põe um terço no bolso da minha camisa. Entro no carro, bato a porta. Ela leva o piá pra dentro. Acendo um cigarro. Minha mão não para de tremer. Seguro firme o volante. Sossega, mão! Sinto o rosto molhando. Enxugo os olhos com as costas da mão. Macho não chora. Meu peito dói, levo a mão no coração. Sinto o terço no bolso da camisa. Faço o sinal da cruz. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém.

 

Biografia

Sou formado em Letras na Univale, e em Geografia da UEPG. Até pouco tempo era borracheiro, o que deixava algumas pessoas perplexas ao verem pilhas de livros em uma borracharia, hoje trabalho como professor na rede pública de ensino e Orientador de Atividades na Biblioteca Sesc. Publiquei algumas crônicas e contos nos jornais Folha de Londrina, Paraná Centro, Revista Uma Nova Visão e Revista Pluriversos. Em 2010 recebi menção honrosa no Prêmio Cataratas de Contos e Poesia, em 2011 fui o segundo colocado no XXXIII Concurso Nacional de Contos e Poesias da FAFIMAN, em 2012 recebi menção honrosa no Concurso Nacional de Contos Laertes Larroca e no VII Concurso de Crônicas Rubem Braga. E fui novamente segundo colocado no XXXIV Concurso Nacional de Contos e Poesias da FAFIMAN. Em 2013 recebi menção honrosa no Prêmio TOC 140 Os cem melhores poemas do Twitter e fui primeiro colocado no XXXV Concurso de Contos e Poesias da FAFIMAN, em 2014 recebi menção honrosa no 13º circuito de Literatura Clesi: 5º Concurso Nacional Contos, fui finalista do Concurso de Contos José Cândido de Carvalho e recebi menção honrosa no Prêmio Cataratas de Contos e Poesias 2014 e no Prêmio CLIPP 2014. Em 2015 recebi menção honrosa no 14° Circuito de Literatura Clesi: 6° Concurso Nacional de Contos. Em 2016 publiquei diversas crônicas para o site Literatura Amarga, fui 3º colocado no Prêmio Escriba de Contos. Em 2017 recebi menção honrosa no 30° Concurso de contos cidade de Araçatuba, fui selecionado para publicação no 7º Concurso de microcontos de humor de Piracicaba.

 

Contato do escritor:

https://www.facebook.com/ricardo.chagas.71

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DOARTE

Livro de poemas de Giuseppe Caonetto

Em 87 tercetos, Giuseppe Caonetto nos faz refletir sobre o sentido da palavra DOAR. Caonetto desvela que Doar é uma  Arte.

Cada terceto é uma sugestão… Uma pista… Um aceno …

Cada terceto de Caonetto descortina, aos que ainda não sabem, que Doar abre mais horizontes do que receber.

“Doar

cultivar rosas

no jardim vizinho”      p.28

Com a palavra DOAR, Caonetto faz alquimia. Dá 87 conotações a este verbo, explora -até a sublimação – as possibilidades desta palavra. De acordo com Cosson (2014, p. 16): ” A prática da literatura, seja pela leitura, seja pela escritura, consiste exatamente em uma exploração das potencialidades da linguagem, da palavra e da escrita, que não tem paralelo em outra atividade humana. ”

É nesta exploração que Caonetto nos conduz. Aceitemos o convite e leiamos cada terceto. Em doses homeopáticas ou de uma só vez, como o leitor preferir.

Não há  contraindicação! Não há limite de idade!

Basta ter leveza e deixar-se levar… Sem pressa!

“Doar

é a arte de compartilhar

celeiros”      p.64

 

Links para conhecer a obra do autor>

https://www.facebook.com/GiuseppeCaonetto/

https://www.linkedin.com/in/giuseppe-caonetto-069756b3/

 

Referências:

CAONETTO, Giuseppe. Doarte. Paranavaí: Editora Paranavaí, 2016.

COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2014.

 

 

 

 

 

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DIÁSPORA PARANAENSE

DIÁSPORA PARANAENSE

                                                                                   Antonio Neto

Meu amigo José,

Filho pródigo de Maringá.

Você nunca mais deu notícias,

Engrossou a fila dos migrantes,

É mais um paranaense errante,

Perdido na Pauliceia!

 

*

 

“Procura-se:

Homem justo,

Simples,

Natural do Paraná.

Quem encontrá-lo,

Será presenteado com uma canção.”

 

**

 

José,

Você é tão simples,

Tão puro!

Um trovador do sertão!

Agora, um ser apagado…

O seu violão está calado,

Sufocado na multidão.

 

***

 

“Procurado:

Paranaense ausente,

Um caçador de ilusões,

Favor entrar em contato

Através deste poema.”

 

****

 

 

Meu amigo José,

Já não ouço a sua voz

Acordando a madrugada,

Despertando a passarada

Que dorme nos pinheirais.

 

*****

 

“Urgente:

Recompensa-se bem quem tiver notícias concretas,

Abstratas,

Objetivas ou subjetivas,

Que possam identificar a (in)exata localização

Do esperançoso migrante

Que se perdeu na busca do vil metal”

 

******

 

José,

Você é tão exato,

Tão casto!

Um típico samaritano.

Hoje, você é estatística:

Um homem sem rosto,

Sem nome.

Um algarismo suburbano!

 

*******

 

“Busca-se – poeticamente – José,

Um filho pródigo do Paraná.

Há décadas que não visita a família,

Não vota,

Não manda notícias.

Esqueceu o caminho de casa…”

 

********

 

José,

Você é negro,

É branco,

Um bugre desconfiado.

É mais um retirante…

Você é brasileiro demais!

 

*********

 

“Desaparecido:

Um rebento de Maringá.

Último endereço: as ruas de São Paulo.

Características marcantes:

Olhar de menino e o cheiro do Paraná.

Estatura: a da honestidade.

Cor: a humana.

Peso: insustentável.

Cicatrizes no ego,

Lacerações nos sonhos,

Marcas de envelhecimento precoce,

Incontáveis queloides nas costas.

Hobbies: canta(dor) e pintor de crepúsculos.”

 

**********

 

José,

Você não é carpinteiro;

Nem o seu filho se chama Jesus…

Você é mais um sem-teto,

Um homem sem paradeiro.

A sua vida é a sua cruz!

 

***********

 

“Carta ao vento:

Amigo,

Perdoe-nos por não o encontrarmos.

Já vasculhamos o palheiro urbanístico,

Investigamos o indevassável,

Interrogamos o silêncio…

Dê-nos uma pista, José!”

 

************

 

 

Meu amigo maringaense,

Busco o seu nome na lista dos desaparecidos,

Dos indigentes,

Despossuídos,

Enganados,

Desiludidos,

Dos sonhos abduzidos…

Procuro,

Procuro!

Procuro à toa!

 

*************

 

“Abaixo assinado:

Nós, abaixo assinados, pedimos a intercessão dos deuses romanos, indígenas e africanos, para que possamos encontrar um ente querido que sumiu do mapa. Seu nome, José. A localização deste cidadão é indispensável para a Consumação dos Séculos. Amém!“

 

**************

 

“Desabafo:

Quando o conheci,

Eu ainda não sabia ser amigo.

Perdoe a minha ascendência adâmica:

O meu egoísmo,

A minha inveja,

A minha roda dos escarnecedores.

Amigo, perdoe a minha cegueira!”

 

***************

 

José,

Meu nobre brasileiro!

Você é um povo inteiro

Que saiu do interior.

Eu o procuro

Em crônicas,

Em poemas,

E lamentos.

Peço a ajuda dos ventos.

Eu abraço a sua ausência!

 

*****************

 

Meu amigo José,

Filho pródigo de Maringá!

 

 

 

Contato do autor: aspn70@hotmail.com

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Conceição Evaristo

 

conceição evaristo

A escritora Conceição Evaristo

Meia lágrima

Não,
a água não me escorre
entre os dedos,
tenho as mãos em concha
e no côncavo de minhas palmas
meia gota me basta.

Das lágrimas em meus olhos secos,
basta o meio tom do soluço
para dizer o pranto inteiro. Sei ainda ver com um só olho,
enquanto o outro,
o cisco cerceia
e da visão que me resta
vazo o invisível
e vejo as inesquecíveis sombras
dos que já se foram.

Da língua cortada,
digo tudo,
amasso o silencio
e no farfalhar do meio som
solto o grito do grito do grito
e encontro a fala anterior,
aquela que emudecida,
conservou a voz e os sentidos
nos labirintos da lembrança.

 

CONCEIÇÃO EVARISTO (Maria da Conceição Evaristo de Brito)

Doutora em Letras (Literatura Comparada) – UFF – Universidade Federal Fluminense -(2011). Mestre em Letras – PUC – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1996). Graduada em Letras – Universidade Federal do Rio de Janeiro (1990). Atua nas áreas de Literatura e Educação, com ênfase, em gênero e etnia. Assessora e consultora em assuntos afro-brasileiros para pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Poetisa, romancista e ensaísta. Parte de sua produção poética aparece em Cadernos Negros, publicação do Grupo Quilombhoje, de São Paulo. Autora dos romances Ponciá Vicêncio e Becos da memória. Antologia poética: Poemas da recordação e outros movimentos; e Antologia de Contos: Insubmissas lágrimas de mulheres. O romance Ponciá Vicêncio tem sido indicado como obra de leitura em vestibulares de universidades brasileiras. Em 2007, foi traduzido para a língua inglesa e está em processo de tradução para a língua francesa.

Fonte: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4796341Z8

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