DOARTE

Livro de poemas de Giuseppe Caonetto

Em 87 tercetos, Giuseppe Caonetto nos faz refletir sobre o sentido da palavra DOAR. Caonetto desvela que Doar é uma  Arte.

Cada terceto é uma sugestão… Uma pista… Um aceno …

Cada terceto de Caonetto descortina, aos que ainda não sabem, que Doar abre mais horizontes do que receber.

“Doar

cultivar rosas

no jardim vizinho”      p.28

Com a palavra DOAR, Caonetto faz alquimia. Dá 87 conotações a este verbo, explora -até a sublimação – as possibilidades desta palavra. De acordo com Cosson (2014, p. 16): ” A prática da literatura, seja pela leitura, seja pela escritura, consiste exatamente em uma exploração das potencialidades da linguagem, da palavra e da escrita, que não tem paralelo em outra atividade humana. ”

É nesta exploração que Caonetto nos conduz. Aceitemos o convite e leiamos cada terceto. Em doses homeopáticas ou de uma só vez, como o leitor preferir.

Não há  contraindicação! Não há limite de idade!

Basta ter leveza e deixar-se levar… Sem pressa!

“Doar

é a arte de compartilhar

celeiros”      p.64

 

Links para conhecer a obra do autor>

https://www.facebook.com/GiuseppeCaonetto/

https://www.linkedin.com/in/giuseppe-caonetto-069756b3/

 

Referências:

CAONETTO, Giuseppe. Doarte. Paranavaí: Editora Paranavaí, 2016.

COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2014.

 

 

 

 

 

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DIÁSPORA PARANAENSE

DIÁSPORA PARANAENSE

                                                                                   Antonio Neto

Meu amigo José,

Filho pródigo de Maringá.

Você nunca mais deu notícias,

Engrossou a fila dos migrantes,

É mais um paranaense errante,

Perdido na Pauliceia!

 

*

 

“Procura-se:

Homem justo,

Simples,

Natural do Paraná.

Quem encontrá-lo,

Será presenteado com uma canção.”

 

**

 

José,

Você é tão simples,

Tão puro!

Um trovador do sertão!

Agora, um ser apagado…

O seu violão está calado,

Sufocado na multidão.

 

***

 

“Procurado:

Paranaense ausente,

Um caçador de ilusões,

Favor entrar em contato

Através deste poema.”

 

****

 

 

Meu amigo José,

Já não ouço a sua voz

Acordando a madrugada,

Despertando a passarada

Que dorme nos pinheirais.

 

*****

 

“Urgente:

Recompensa-se bem quem tiver notícias concretas,

Abstratas,

Objetivas ou subjetivas,

Que possam identificar a (in)exata localização

Do esperançoso migrante

Que se perdeu na busca do vil metal”

 

******

 

José,

Você é tão exato,

Tão casto!

Um típico samaritano.

Hoje, você é estatística:

Um homem sem rosto,

Sem nome.

Um algarismo suburbano!

 

*******

 

“Busca-se – poeticamente – José,

Um filho pródigo do Paraná.

Há décadas que não visita a família,

Não vota,

Não manda notícias.

Esqueceu o caminho de casa…”

 

********

 

José,

Você é negro,

É branco,

Um bugre desconfiado.

É mais um retirante…

Você é brasileiro demais!

 

*********

 

“Desaparecido:

Um rebento de Maringá.

Último endereço: as ruas de São Paulo.

Características marcantes:

Olhar de menino e o cheiro do Paraná.

Estatura: a da honestidade.

Cor: a humana.

Peso: insustentável.

Cicatrizes no ego,

Lacerações nos sonhos,

Marcas de envelhecimento precoce,

Incontáveis queloides nas costas.

Hobbies: canta(dor) e pintor de crepúsculos.”

 

**********

 

José,

Você não é carpinteiro;

Nem o seu filho se chama Jesus…

Você é mais um sem-teto,

Um homem sem paradeiro.

A sua vida é a sua cruz!

 

***********

 

“Carta ao vento:

Amigo,

Perdoe-nos por não o encontrarmos.

Já vasculhamos o palheiro urbanístico,

Investigamos o indevassável,

Interrogamos o silêncio…

Dê-nos uma pista, José!”

 

************

 

 

Meu amigo maringaense,

Busco o seu nome na lista dos desaparecidos,

Dos indigentes,

Despossuídos,

Enganados,

Desiludidos,

Dos sonhos abduzidos…

Procuro,

Procuro!

Procuro à toa!

 

*************

 

“Abaixo assinado:

Nós, abaixo assinados, pedimos a intercessão dos deuses romanos, indígenas e africanos, para que possamos encontrar um ente querido que sumiu do mapa. Seu nome, José. A localização deste cidadão é indispensável para a Consumação dos Séculos. Amém!“

 

**************

 

“Desabafo:

Quando o conheci,

Eu ainda não sabia ser amigo.

Perdoe a minha ascendência adâmica:

O meu egoísmo,

A minha inveja,

A minha roda dos escarnecedores.

Amigo, perdoe a minha cegueira!”

 

***************

 

José,

Meu nobre brasileiro!

Você é um povo inteiro

Que saiu do interior.

Eu o procuro

Em crônicas,

Em poemas,

E lamentos.

Peço a ajuda dos ventos.

Eu abraço a sua ausência!

 

*****************

 

Meu amigo José,

Filho pródigo de Maringá!

 

 

 

Contato do autor: aspn70@hotmail.com

solitário

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Conceição Evaristo

 

conceição evaristo

A escritora Conceição Evaristo

Meia lágrima

Não,
a água não me escorre
entre os dedos,
tenho as mãos em concha
e no côncavo de minhas palmas
meia gota me basta.

Das lágrimas em meus olhos secos,
basta o meio tom do soluço
para dizer o pranto inteiro. Sei ainda ver com um só olho,
enquanto o outro,
o cisco cerceia
e da visão que me resta
vazo o invisível
e vejo as inesquecíveis sombras
dos que já se foram.

Da língua cortada,
digo tudo,
amasso o silencio
e no farfalhar do meio som
solto o grito do grito do grito
e encontro a fala anterior,
aquela que emudecida,
conservou a voz e os sentidos
nos labirintos da lembrança.

 

CONCEIÇÃO EVARISTO (Maria da Conceição Evaristo de Brito)

Doutora em Letras (Literatura Comparada) – UFF – Universidade Federal Fluminense -(2011). Mestre em Letras – PUC – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1996). Graduada em Letras – Universidade Federal do Rio de Janeiro (1990). Atua nas áreas de Literatura e Educação, com ênfase, em gênero e etnia. Assessora e consultora em assuntos afro-brasileiros para pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Poetisa, romancista e ensaísta. Parte de sua produção poética aparece em Cadernos Negros, publicação do Grupo Quilombhoje, de São Paulo. Autora dos romances Ponciá Vicêncio e Becos da memória. Antologia poética: Poemas da recordação e outros movimentos; e Antologia de Contos: Insubmissas lágrimas de mulheres. O romance Ponciá Vicêncio tem sido indicado como obra de leitura em vestibulares de universidades brasileiras. Em 2007, foi traduzido para a língua inglesa e está em processo de tradução para a língua francesa.

Fonte: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4796341Z8

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RUAS … DO BRASIL

Crônica de Elizabeth Sunshine, brasileira residente em Corby (UK)

Brasil, país onde nasci, cresci e me despedi. E segui para outros destinos, à procura de segurança e de proteção; só não encontro perfeição, mas sinto paz no coração.

Oh pátria que um dia foi tão amada, hoje tão temida, tão desprezada, não mais a pátria desejada.

Lugar onde eu corria livremente para sentir a brisa no rosto, se tornou um cenário onde corro para não ter o rosto desfigurado.

As praças eram cheias de crianças brincando, hoje resta o vazio, o silêncio, o medo….

Antigamente o zoológico era o ponto turístico muito visitado, hoje em dia os animais andam às soltas, não existem mais jaulas, vagam destemidos, se achando donos dos territórios, passam aterrorizando e matando. O Zoológico sem jaulas fez uma parada na estação Pedro II do Metrô. E os animais mais desprezíveis e nojentos são : Alípio Rogério Belo dos Santos e Ricardo do Nascimento Martins, que se divertiram massacrando em local público a sua presa – Luis Carlos Ruas –  um nobre trabalhador que saiu em defesa do próximo, que teve a nobre atitude e coragem que a pouca plateia que ali estava não teve para o ajudar.

Agora esses animais que andavam livremente querem estar numa jaula separadamente para não morrerem.

Que a justiça seja feita, jaula compartilhada com animais do seu patamar. Vocês têm que aprender a viver em sociedade prisional.

Luís Carlos Ruas, que muitas Ruas sejam iluminadas como você foi, a sua atitude foi nobre e te levou para a eternidade. “Se essa Rua fosse minha, eu mandava ela brilhar, com pedrinhas de brilhante só para o meu amor passar…” É isso… Você espalhou pedrinhas para o próximo passar! Descanse em paz, Ruas!

 

 

 

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José Carlos Oliveira: um sábio na Patetocracia

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José Carlos Oliveira ( foto do Arquivo Secult – ES)

Nascido na ilha de Vitória, em 1934, José Carlos  Oliveira foi um  escritor produtivo, corajoso e transgressor (em um momento em que  transgredir era um ato perigoso); tendo escrito para o Jornal do Brasil por mais de 20 anos. Durante os Anos de Chumbo, ele foi uma voz crítica e irônica que ousou, na escrita, encarar a sombra do regime militar.

Depois de décadas de ausência, J. C.  Oliveira retorna à terra natal. Desenvolve na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o projeto Escritor Residente . Ironia do destino, voltou à sua terra para a despedida final. O notável escritor viria a falecer no dia 13 de Abril de 1986.

Pouco conhecido fora dos círculos acadêmicos, José Carlos Oliveira é um autor que faz jus a uma maior divulgação e valorização por parte de capixabas e demais concidadãos brasileiros.

Nessa oportunidade, apenas farei a apresentação desse escritor que deveria dispensar apresentações. Contudo, num país que esquece facilmente os seus filhos mais talentosos, faz-se necessário este nosso esforço.

A obra de José Carlos  Oliveira:

Romances:

O Pavão Desiludido, de 1972;

Terror e Êxtase, de 1978;

Um Novo Animal na Floresta, de 1981;

Domingo, 22, de 1984).

 Coletâneas de crônicas:

Os Olhos Dourados do Ódio, de 1962;

A Revolução das Bonecas, de 1967;

O Saltimbanco Azul, de 1979;

Bravos Companheiros e Fantasmas, de l986.

Diário da Patetocracia (coletânea póstuma organizada por Bernardo de Mendonça), 1995

 

Vale a pena conhecer mais este talentoso escritor.  Recomendo:

http://www.secult.es.gov.br/noticias/22516/encontro-na-biblioteca-lembra-os-30-anos-da-morte-de-jose-carlos-oliveira.html

http://www.graphia.com.br/diversos/diariocrit.php

http://tertuliacapixaba.com.br/index.htm

Depoimentos em vídeo:

Documento audiovisual produzido por Pedro J. Nunes, escritor residente da Biblioteca Pública do Espírito Santo

Agradeço a sua visita!

Antonio Neto

Santa Maria de Jetibá, 27 de novembro de 2016.

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Fernanda Leal e o ensaio fotográfico inspirado na obra Água Viva, de Clarice Lispector

“Que certeza é esta que uma lente fria documenta?” (Bernardo Soares)

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Água Viva, de Clarice Lispector, na lente de Fernanda Leal

Que reação você já teve após a leitura de um livro?

A escola pede fichas de leitura, resumos, resenhas, fichamento e outras exigências.

Fernanda Leal fez um ensaio fotográfico inspirado na leitura de Água Viva, de Clarice Lispector. Explicando: Fernanda é fotógrafa.  Jornalista  e especialista em Fotografia, ela traz uma forma inovadora de apreciação e contribuição na discussão sobre uma obra literária.

Há pouca produção na área; por isso, o trabalho de Fernanda Leal deverá atrair  olhares , admiradores e aprendizes. Se é que isso seja algo que possa ser ensinado. Mas se não puder ser ensinado (e quem ensinará “sensibilidade”?), poderá ser treinado o olhar e aperfeiçoado o trabalho com a câmera fotográfica.  Embora seja, de certo modo, um trabalho inovador, Fernanda Leal não está sozinha gritando no deserto. Em outras frentes, outras mentes focam suas lentes (ou canetas, ou teclados) abordando o assunto. Alik Wunder é uma dessas vozes…

A pesquisadora  Alik Wunder, da  Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), escreveu um interessante artigo intitulado “Uma educação visual por entre Literatura, Fotografia e Filosofia”.  O referido artigo é parte da pesquisa de pós-doutorado de  Alik Wunder. Indispensável para quem aprecia Literatura e Fotografia. E por que não dizer “Literafotografia”? Elas podem se fundir, procriar e gerar novas expressões da Arte; como o fez Fernanda Leal.

Para Alik Wunder, “No campo da pesquisa e das experiências em educação e imagem, a fotografia é pensada de diversas formas: como possibilidade de registro do vivido, em especial em escolas, como narrativa de sentidos e memórias, como afirmação de identidades, como forma de produzir e expressar representações sociais e culturais e, raramente, como criação artística e invenção de mundos…”. Podemos, pois, trazer a fotografia para a esfera da “criação artística”, irmanando-se às outras Artes e (re)inventando nossos acanhados mundos.

Fernanda Leal e Alik Wunder talvez nem se conheçam, mas militam na mesma seara; trazendo-nos reflexões mais aprofundadas sobre a leitura e a fotografia. Ela, a fotógrafa, na prática da fotografia; e a professora, na pesquisa acadêmica. E nós, na apreciação e no estudo. Enriquecendo nossos mundos interiores com as belezas da Literatura e da Fotografia.

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Fernanda Leal, ensaio fotográfico sobre reflexões de leitura de Água Viva, de Clarice Lispector.

 

Para quem quiser pesquisar mais:

Ensaio fotográfico retrata recepção do texto “Água Viva”, de Clarice Lispector

http://www.seer.ufrgs.br/index.php/Poled/article/view/22532/13065

 

 

Antonio Neto

Santa Maria de Jetibá – ES

04/09/2016

 

 

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TODA A TERNURA DO VALE DO AÇO

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“Belas Bailarinas/Gracious Ballerinas” e “A chuva e o barquinho”, de Marilia Siqueira

Nem só de dureza é feito o Vale do Aço. Em Ipatinga, cidade que cresce em torno da USIMINAS, viceja  – também  – uma efervescente vida cultural. Marília Siqueira Lacerda é uma das escritoras que vivem e atuam nessa região mineira. Marília é versátil e sua poesia dirige-se tanto ao público infantil quanto ao adulto.

Nas obras “Belas Bailarinas / Gracious Ballerinas” e “A Chuva e o Barquinho”, a autora mineira traz às páginas uma poética que se assemelha aos bordados das antigas artesãs das Gerais. Com o  fio da delicadeza, Marilia Siqueira Lacerda vai plasmando leves versos que se condensam em estrofes que trazem o arco-íris aos nossos olhos.

Ilustrado por Rosane Dias, “Belas Bailarinas / Gracious Ballerinas” é um presente para os olhos. A arte gráfica tem a mesma sutiliza dos versos. A edição é bilingue (Português e Inglês), fazendo com que o leitor possa apreciar a obra nos dois idiomas.

“A Chuva e o Barquinho” tem reflexos de infância. Traz à tona aquelas lembranças embaçadas pelo tempo; mas que estão vivas, muito vivas. Ilustrado por João Marcos, a obra também é bilíngue Português/Inglês. Navegar nesse barquinho é preciso, porque sonhar é preciso…

Aliando-se a ilustradores do calibre de Rosane Dias e João Marcos, Marília Siqueira Lacerda criou obras que vão fazer a diferença tanto nas aulas de Língua Portuguesa quanto nas de Inglês. Que os gestores da Educação sejam sensíveis e enriqueçam as suas bibliotecas com essas duas obras que têm a capacidade de encantar crianças que habitam em nós.

 

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” GRACIOUS BALLERINAS”

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“The rain that is little

brings no flood at all!”

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